Uma aula de direito

Se tem uma coisa que aprendi no COF (Curso Online de Filosofia), com o saudoso professor Olavo de Carvalho é que expressões que não encontram ressonância na experiência real não significam nada.

De que adianta ler livros, ouvir palestras e aulas, apenas para ficarmos imersos em um emaranhado de jogo de palavras?

Uma tremenda perda de tempo.

Ao entrarmos em contato com um conteúdo é preciso recorremos à experiência meditada, a qual consiste em absorver uma ideia (abstrata) e rastreá-la na estrutura da realidade (concreta). É preciso que percebamos as implicações dela; em suma, que a vislumbremos com nossos próprios olhos.

Por isso, quando vejo um professor enunciar inúmeras teorias, simplesmente como forma de demonstrar seu “arcabouço cultural”, sei que há grande chance de não ouvir nada de valor. Isso porque essas “teorias” não são fruto daquela experiência meditada e profunda. São apenas palavras ao vento, que visam, no mais das vezes, embelezar sua autoimagem.

Pois bem.

Não há campo mais fértil ao florescimento de enunciação de teorias desacompanhada da experiência do que na ciência jurídica. Sabemos que algo de vaidade permeia aqueles que falam em nome do direito; parece até ser próprio da atividade. Juristas que, para falar uma coisa simples, enunciam teorias e mais teorias. Mas quando se investiga a fundo, percebe-se que esta ou aquela teoria não foi fruto de uma reflexão séria; foi apenas citada para “embasar” seu entendimento ou, simplesmente, para “demonstrar” conhecimento. Nada mais pueril.

Toda teoria nada mais é do que a opinião, a afirmação, a emissão de um juízo acerca de alguma realidade. Logo, só há dois caminhos: ou corresponde à realidade e está certa; ou não corresponde e, portanto, está errada. Nem sempre é fácil saber o caminho que determinada teoria seguirá, mas isso não desnatura o processo. Todo grande homem de estudo sabe disso, e essa é a essência da atividade científica e filosófica. A formação acadêmica visa — ou melhor, deveria — justamente preparar-nos para, com maior ou menor habilidade, saber que caminho certa opinião trilhará, ou ao menos dar-nos instrumentos para buscar essa resposta. Mas, repito, o trabalho é árduo e não é para menino, como dizia Aristóteles.

Acontece que a mente humana constantemente busca zonas de conforto. E não preciso trazer nenhuma pesquisa científica para provar isso.

Pense comigo: O que é mais fácil?

(1) investigar a fundo se a teoria está certa ou errada; ou

(2) dizer que não existe uma verdade, e que cada um cria a sua e que as coisas são relativas;

A segunda com certeza é mais fácil e, convenhamos, bem mais cômoda. De posse desse entendimento eu não preciso fazer grandes leituras, afinal, minha visão da realidade tem o mesmo peso que a de Aristóteles. Aliás, nem preciso saber exatamente o que ele disse, porque hoje vivo em um novo mundo e numa outra cultura que moldam minha forma de ver as coisas. Tudo isso é muito bonito de se dizer; parece democrático, respeitador e educado. Sou um bom cidadão porque sei respeitar as opiniões diferentes, justamente quando as desprezo. Perfeito!

Acontece o seguinte, a afirmação de que “não existe verdade” é para ser acreditada ou não? Será também uma construção social? Ela é relativa também? Temos aí um problema.

Na verdade, não existe problema algum. O que acontece é que se trata de mais uma opinião/teoria falsa. Se emito um juízo que entra em contradição no mesmo momento em que o enuncio, é porque não se trata de nada. É só uma besteira dita por meio de frases bonitinhas sem significado algum. No entanto, a cultura atual é dominada por pensamentos desse idiotizante relativismo. E na vida social não adianta muito demonstrar isso. Seria como, no mito platônico, a volta do homem à caverna tentando explicar a realidade para quem não a quer ver.

Como diz Olavo de Carvalho (no COF.47) e Aristóteles (na Retórica), quando a pessoa se deixa convencer por argumentos racionais é porque ela já está num nível intelectual razoável. Na grande maioria das pessoas, o argumento racional não tem a força de suplantar as crenças e os valores arraigados no seu imaginário. Com aquele estudante de ciências humanas, embevecido pelas crenças do relativismo, o argumento racional dificilmente surtirá algum efeito.

Falo isso por experiência real.

Dia desses tive uma aula com um professor de direito que foi um verdadeiro tubo de ensaio para constatar essas minhas impressões. O homem destacou desde o início de sua aula, que vivemos a pós-verdade, que as coisas são construídas a partir de nossas vivências; em outras palavras, que as coisas são relativas. Falou de um monte de teorias. Todavia, a matéria da aula era discutir “pontos controvertidos de direito”.

Ora, se as coisas são relativas e não existe uma verdade, não haveria ponto para “controverter”. O que haveria seriam somente opiniões diversas que não poderiam ser contrapostas, pois todas devem ter o mesmo valor. Aliás, se cada aluno da sala emitir uma opinião também deveria ter o mesmo valor. Não haveria nem mesmo critério de gradação para verificar o que é melhor ou pior, porque também representaria um desrespeito e menosprezo à opinião do outro.

Então o que fizemos ali naquela aula?

Passamos o tempo ouvindo flatus vocis. A probabilidade de um relativista acertar uma afirmação é a mesma de um leigo no assunto; se ocorrer, será sempre acidental.


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