Ao menos em linhas gerais, identificamos quem seria o verdadeiro estudante de filosofia. Apresentamos algumas características que são basilares deste ser, desta criatura em extinção. Chegamos a uma conclusão de que o verdadeiro estudante tem que ter uma inquietação interior, ouvir com humildade aquilo o que os sábios já trataram do assunto de interesse; e aos poucos, a partir dessa inquietação e dessa busca, nosso estudante, às apalpadelas, pode chegar às suas próprias conclusões; se for o caso, obviamente.
Esse é o verdadeiro estudante da filosofia.
Neste segundo ponto, nós vamos entrar na seguinte questão: o que é e o que não é estudar filosofia?
Compreender essa figura do genuíno estudante que acabamos de descrever, já nos dá uma pista da resposta. Ora, se o estudante de filosofia é aquele que sente a inquietação pela busca do princípio e da verdade das coisas, o estudo da filosofia é justamente aquilo que vai preencher esta inquietação, ou pelo menos tentará. O estudo da filosofia, portanto, consiste na busca constante da verdade, do princípio primeiro, da essência das coisas, do real significado daquilo que chega ao estudante. Como diz Platão, os filósofos são “aqueles que amam o espetáculo da verdade“ (A República, Edipro, p. 267).
É por isso que o nome filosofia significa amor à sabedoria. O estudante de filosofia não ama um “sistema filosófico” ou uma ideologia que de algum modo lhe foi ensinada, mas ama descascar as camadas das ideias e entes, para buscar um solo seguro, mesmo que muitas vezes, contrarie o consenso idiotizante do seu meio.
Assim, o amor à sabedoria implica, por essência, amor e busca da verdade. Não existe esta conversa de a pessoa amar a sabedoria e não ansiar ardentemente pela verdade.
Quem ama a sabedoria, busca, ainda que às apalpadelas como diz São Paulo, a verdade das coisas.
Portanto, o estudante quer entender realmente a essência daquilo que lhe chega pelos sentidos, seja por meio de conversas, notícias, aulas etc. O que Sócrates, o pai da filosofia, fazia era simplesmente isso: descascar as camadas daquilo que as pessoas achavam que sabiam. E nesse processo apelava constantemente ao testemunho vivo do seu próprio interlocutor.
Esse interesse de entender as coisas de uma forma mais profunda, nada mais é do que o estudo da filosofia. Obviamente, as áreas de interesse podem mudar um pouco, de pessoa para pessoa, mas essa estrutura interna é a mesma. Também é fato que podemos falar futuramente de método filosófico, mas independente disso, lá na essência o que existe é esse interesse genuíno pela compreensão das coisas.
Por isso que a filosofia não é necessariamente exercida exclusivamente por um filósofo profissional, com diploma universitário. Aliás, muitas vezes esta figura não tem nada de filósofo, a não ser o tal documento.
Por vezes, a pessoa pode ser um médico, um advogado, um juiz, um pedreiro, um escravo, um cineasta, e ser um filósofo. Um cientista também pode ser um filósofo, porque o filósofo é quem tem essa sincera inquietação e busca constantemente pelo terreno seguro da verdade, a ponto de sacrificar suas próprias opiniões pré-concebidas.
Uma vez que compreendemos que a filosofia é a busca da verdade, e que o verdadeiro estudante tem essas características que tratamos, podemos então concluir com muita segurança, que pelo menos três coisas não tem nada a ver com a essência do estudar a filosofia.
Quais são elas?
- A Mera leitura de livros
- A Ideologia
- O Relativismo
1 A mera leitura de Livros
O simples fato de ler livros de autores conhecidos como filósofos, por si só é estudar filosofia?
Não, isso é um ato de leitura; simplesmente isso.
Quando bem feita, pode inclusive servir à obtenção de cultura literária e de cultura filosófica. Todavia, esse conteúdo sem a realidade da inquietação e busca da verdade, pode gerar, no máximo, apenas uma espécie de fetichismo com livros, um passatempo mais saudável ou um meio de projetar aparente “intelectualidade” e pedantismo.
É claro que a leitura de livros é um instrumento básico para o estudante de filosofia. Todavia, esta leitura somente pode ser meio, nunca um fim em si mesmo. Ler livros como um verdadeiro estudante de filosofia significa buscar incessantemente compreender do quê o livro está tratando, se faz sentido e se passa pelo crivo da coerência e unidade. Por outro lado, quando se ler livros apenas para ficar imerso naqueles jogos de palavras, e mergulhado num sistema criado pelo escritor, não se está propriamente estudando filosofia, mas apenas passando um tempo. Em suma, o livro, obrigatoriamente, deve ter um referente real. Se o referente não for encontrado na leitura, desconfio que houve uma grande perda de tempo.
2 Ideologia
Ideologia consiste em um conjunto de ideias que servem apenas para criar uma roupagem legitimadora para uma intenção já pré-definida.
Isso, de longe, não é filosofia. Ideologia não tem nada a ver com filosofia.
Ideologia consiste em criar justificativas aparentemente legítimas para uma conclusão já estabelecida e conhecida de antemão. São “vestimentas de ideias”, como Karl Marx dizia.
A filosofia, por sua vez, nunca parte de conclusão pré-definida. Ela parte, sim, de verdades que são sabidas, e vai aos poucos tentando descobrir verdades mais profundas dali decorrentes. Os diálogos de Platão são exemplos clássicos desse genuíno exercício da filosofia, pois neles, Sócrates parte de premissas que a pessoa sabe serem evidentes, para depois descobrir se as ideias pré-estabelecidas que o interlocutor possuía eram verdadeiras ou não.
A ideologia trilha um caminho diferente. O ideólogo estabelece a ideia que quer fazer prevalecer, com vistas a uma finalidade qualquer, e então escraviza os argumentos para forçadamente chegarem à conclusão visada, varrendo para baixo do tapete questões fundamentais, as quais não podem nem mesmo serem levantadas. Assim, o discurso ideológico normalmente tem algumas características evidentes como: a) demonização de quem levanta questões contra ela; b) desviar-se constantemente das questões fundamentais, para dar grande importância a questões acidentais.
Em lições futuras, faremos uma reflexão maior sobre a ideologia. Por ora, é o suficiente.
3 Relativismo
O Relativismo nada mais é do que a ressurreição do velho sofisma de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas” ou, em outras palavras, que não existe uma verdade objetiva.
Ora, se a filosofia é a busca da verdade, e o relativismo consiste justamente na negação da verdade, o “estudo” que parte dessa premissa relativista das coisas não pode ser filosofia.
Um estudo que parte dessa premissa, no máximo, se aproximará um pouco da ideologia. Por isso, não é incomum o relativismo trilhar um caminho de tribalismo, ou seja, de mero agrupamento de pessoas que pensam de um determinado modo. O relativismo leva apenas à criação de grupos para ver quem ganha na força.
Assim, se a pessoa pertence ao meu grupinho, nós vamos fazer ideias relativas ao meu grupinho; se a pessoa pertence ao outro, nós vamos ver quem tem mais força. Relativismo, no fim das contas, nada mais é do que uma briga que vai ser vencida pelo mais forte.
Então, aquele que tiver mais ferramentas para agrupar mais pessoas em torno daquelas ideias que ele criou, tem grande chance de vencer a “discussão”.
Mas isso, francamente, não é estudar filosofia. O filósofo genuíno não está interessado profundamente em se impor sobre um grupo. Ele está incansavelmente interessado em buscar a verdade. Não é à toa que Sócrates aceita o seu destino de prisão e morte, a ter que trair a filosofia e a verdade, e contrariar tudo aquilo que ensinara publicamente. Como diz Sócrates, respondendo ao afortunado Críton, “por que se importar tanto com o que pensa a multidão?” (Críton).
O estudo da filosofia, aliás, rejeita a premissa do relativismo, não simplesmente por um ato deliberativo, mas porque ele mostra-se uma contradição em si. O relativismo é uma ideia que não se firma em pé. Deveras, a afirmação de que a verdade não existe, se pretende ser verdadeira, não? Quem afirma que a verdade não existe, quer que acreditemos nessa declaração, não é assim? Ora, se a verdade não existe, porque devo ouvir quem quer que seja? É aí que entra a isca do discurso ideológico, porque, este sempre possui uma roupagem convidativa, que anestesia o interlocutor, sem exigir muitas renúncias por parte dele.
Hodiernamente, todavia, o que vemos nas faculdades, na classe falante, basicamente são essas três coisas: pedantismo, ideologia e relativismo.
Às vezes, até encontramos algumas pessoas que têm uma boa cultura, uma certa quantidade de leitura, mas não tem, minimamente, essa inquietação profunda, de querer estar na verdade. Muitas vezes, fulano também tem certa leitura, mas está empregado mais em defender certas ideologias já pré-estabelecidas, do que realmente ir até a toca do coelho.
A busca da verdade, o estudo verdadeiramente filosófico, por sua vez, consiste muitas vezes em encontrar aquilo que nos desagrada, aquilo que violenta nossas opiniões e ideias pré-concebidas. Mas é isso mesmo. Não é à toa, que nosso Senhor Jesus indica que a primeira bem-aventurança é justamente a pobreza de espírito, isto é, a verdadeira humildade. O estudo da filosofia, assim como o caminho da santidade, implica um renunciar-se a si mesmo quase que constantemente.
É fato, a verdade nem sempre vai nos agradar.
A verdade, por vezes, contraria os nossos gostos, as nossas opiniões, aquilo que a gente imaginou no início. E, justamente por isso, a filosofia é um processo de depuração disso aí. É no estudo filosófico das coisas que vou depurar meus gostos, minhas ideias, minhas vontades, minhas opiniões, para saber se o objeto que estou vendo realmente tem sentido. E, claro, nessa busca, eu vou ouvir outros que também fizeram isso. E, aos poucos, com o pé no chão, vamos avançando.
Isso é estudar filosofia.
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